Dois Invernos e o Tempo de Afrouxar a Soga
Houve um ano, entre 2017 e 2018 — o ano da Travessia —, em que vivi dois invernos num só. Enfrentei o frio do Sul e, em seguida, o final do inverno europeu. Sem sol suficiente, com panos inadequados e a pele sentindo o impacto, foi uma experiência tão perturbadora quanto válida. Hoje, me vejo num inverno ininterrupto de dois anos. O amor traz calor, mas traz frio também; tem fogo e tem gelo. Sigo sem roteiro para consultar, enfrentando o vento congelante e o sol escondido feito tesouro no meio de centenas de malas, lágrimas e sacolas. Cada estação tem seu propósito, mas ando longe até da lógica do tempo. Remedio com químicos o espírito que corcoveia e ruma só. Os olhos dos cavalos, com seu brilho inebriante, e sua respiração abrupta me castigam com o meu próprio relincho. Minhas pegadas barulhentas, cheias de rosetas girando sobre meu próprio calcanhar, me devolvem o castigo que corcoveiei nestas paragens de virar mundo a galope. Meu tino e meu destino me traem a todo momento. Só q...