Estranho na própria terra: o paradoxo de quem escolhe voltar
No post passado, brinquei com a ideia de uma Inteligência Artificial entrando em curto-circuito ao tentar decifrar as leis brasileiras. Mas, tirando a ironia técnica, a verdade é que quem vive o dia a dia desse país sente esse curto-circuito na própria pele.
A raiz dessa engrenagem travada atende por um nome pomposo: "presidencialismo de coalizão". Na prática, eu prefiro chamar de presidencialismo de colisão. É aquele sistema onde o governo precisa lotear o Estado e negociar fatias de poder com dezenas de partidos para conseguir aprovar qualquer coisa. O resultado desse cabo de guerra político é uma legislação confusa, editada às pressas, e um custo de máquina pública altíssimo.
E quem paga a conta? Nós, suportando impostos dignos de primeiro mundo para sustentar privilégios estatais, enquanto assistimos à falta de civilidade mais básica nas ruas, onde regras simples de convivência são ignoradas diariamente.
É um cenário devastadoramente desafiador. Tanto que, em algum momento da vida, quase todo mundo que busca um pouco de previsibilidade e paz mental acaba se fazendo a pergunta de um milhão de dólares: “Será que não está na hora de arrumar as malas e sair do país?”
Eu já fiz esse movimento. Peguei o passaporte, cruzei fronteiras, vivi a estabilidade de instituições maduras onde a regra do jogo é clara e o futuro é planejável. E quer saber? Eu voltei.
Voltei porque a física da vida lá fora tem um inverno que a contabilidade não calcula. A gravidade que nos puxa de volta para casa é feita de carne, osso, memória e afeto. O IDH mais alto do mundo não compra o almoço de domingo com a família, as piadas que todo mundo entende sem precisar explicar, o calor de um mate compartilhado e os laços profundos que a gente só constrói fincando a raiz no próprio chão.
Mas o retorno tem um preço alto. Ao pousar de volta, a colisão com a nossa realidade institucional é violenta. Você se descobre vivendo em um paradoxo doloroso: sente-se um "não cidadão" no próprio país, cansado das amarras do sistema, mas também se sente um estranho lá fora, incapaz de se desligar das suas origens.
Como sobreviver a isso? Criando uma espécie de "exílio interno".
Já que a fuga geográfica não cura a saudade dos nossos, e a permanência passiva adoece a mente diante do caos nacional, o caminho é fechar o foco. Blindar a mente do macrocenário político que não podemos mudar sozinhos e canalizar a energia para proteger e valorizar o nosso próprio quadrado: nossa comunidade, nosso trabalho, nossos afetos.
O Brasil não é para amadores e nunca será. Viver aqui com os olhos abertos é um exercício de resiliência heroica. Escolher os afetos em vez da estabilidade institucional é uma decisão de coragem. Uma escolha legítima, mesmo que a gente passe o resto dos dias olhando para a nossa própria terra com os olhos de quem aprendeu a ver o mundo de fora.
E você, já viveu esse dilema de partir ou ficar? Como constrói o seu próprio exílio para manter a sanidade por aqui?

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