Nos Porões da Memória: O Livro Ouro, o Campo da Redenção e a Salvaguarda da Nossa História

Pesquisar, preservar, praticar e promover a cultura. Não são apenas verbos de um plano de gestão municipal ou conceitos teóricos de cartografia afetiva; são, em última análise, os pilares que nos mantêm humanos.

Aproveitando a marca em que caminhamos juntos — tocando a casa dos 70 mil leitores no Conto Pra Viagem —, decidi fazer uma imersão física no coração da memória oficial e sentimental dos porto-alegrenses. Cruzei os portões do Arquivo Histórico de Porto Alegre Moysés Vellinho.

"Fachada em tom rosa do prédio tombado do Arquivo Histórico de Porto Alegre Moysés Vellinho, destacando as janelas em arco, o porão elevado e o jardim arborizado ao redor."


O Chalé da Memória e a Casa da História

Para quem caminha pelas ruas da capital, o edifício já se impõe como poesia arquitetônica. Trata-se daquele magnífico conjunto de chalés com eira e beira — ostentados um dia pela família Malheiros e que, mais tarde, serviram como escola antes que suas paredes, sacadas e janelas adornadas abrigassem o acervo documental do nosso Poder Executivo.

Caminhar entre suas salas e porões é atravessar portais temporais. Ali repousam coleções históricas de jornais como o Correio do Povo e o Jornal do Comércio, registrando o pulsar do cotidiano gaúcho ao longo dos séculos. Mas a verdadeira estrela da casa exige luvas, reverência e silêncio.

"Vista interior através da janela de vidro do arquivo, mostrando o caminho pavimentado de pedras que corta a área verde e arborizada do jardim interno."


O Livro Ouro e o 7 de Setembro de 1884

Em uma das mesas de pesquisa do arquivo, tive o privilégio de estar diante do Livro de Ouro e do registro do Centro Abolicionista à Câmara Municipal.

Ali, em 7 de setembro de 1884 — quatro anos antes da promulgação da Lei Áurea no país —, a cidade de Porto Alegre registrava simbolicamente o fim da escravidão em seu território. Nas páginas amareladas, repousam a grafia e os números frios da época: os registros minuciosos de quantos escravizados negros cada senhor e dono libertava, com seus nomes e cartas de alforria.

Foi exatamente nesse mesmo 7 de setembro que o antigo Largo da Várzea recebeu a denominação de Campo da Redenção — hoje o nosso Parque Farroupilha. Uma homenagem direta à libertação dos escravizados, consolidando aquele espaço como o território sagrado das manifestações culturais, da convivência e da liberdade até os dias de hoje.



"Exemplar histórico do livro O Centro Abolicionista à Câmara Municipal de Porto Alegre, em encadernação ornamental com detalhes em dourado e alto-relevo, exposto sobre mesa no Arquivo Histórico de Porto Alegre."

A Urgência da Preservação e o Futuro dos Acervos

Nos porões e salas dos arquivos e bibliotecas — sejam físicos ou virtuais —, estão as respostas para muitas das nossas crises atuais e as reflexões necessárias para o futuro.

Prédios tombados por iniciativa e sensibilidade da sociedade civil precisam acompanhar o tempo: demandam modernização, novos recursos de climatização e tecnologias adequadas para a guarda de papel e documentos raros. Preservar a memória do executivo e da cidade é garantir que o cidadão do futuro saiba exatamente de onde veio para compreender para onde caminha.

Agradeço imensamente, na pessoa da Vera, pela recepção, pela visita guiada impecável e pela dedicação diária e apaixonada em manter viva e presente a nossa história.

"Detalhe arquitetônico da sacada com grade metálica e porta de entrada em madeira do chalé histórico do Arquivo Municipal, sob a sombra das árvores do terreno."


Brindo aos Leitores da Estrada

Chegar próximo aos 70 mil acessos neste espaço de transbordo e reflexão reforça o compromisso de continuar compartilhando a viagem não apenas como itinerário geográfico, mas como imersão cultural e afetuosa.

À cultura que nos resgata,

Ao patrimônio que nos habita.

Éderson Otharan

Conto Pra Viagem


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