O Tesouro Volátil- Um Conto Sobrenatural
Nota do Autor: Há histórias que a gente não inventa; a terra simplesmente nos devolve. Nascido na antiga "Santa Fé" de Érico Veríssimo — nossa Cruz Alta —, resgato esta narrativa que começou a se desenhar anos atrás. Entre o mistério sobrenatural, a ganância do desespero e o respeito à memória daqueles que habitaram os pampas antes de nós, fica a pergunta: quanto da história da nossa terra continua enterrado nos fundos de casa?
TESOURO VOLÁTIL
Por Éderson Otharan
Nas vielas antigas da velha "Santa Fé" de Érico Veríssimo — a nossa Cruz Alta —, o passado não é poeira esquecida; é solo encarnado.
Eu trazia no peito o peso de quem vê as contas apertarem o pescoço enquanto contempla os filhos. Helena tentava equilibrar o cotidiano entre os passos risonhos da nossa pequena Karen e o choro manso do recém-nascido Miguel. A casa em que morávamos fora herança de minha mãe: uma estrutura antiga, de paredes espessas, erguida sobre um terreno acidentado nos fundos, onde o barro vermelho insistia em ceder a cada chuva de verão.
Procurando uma bússola no escuro, fui ao encontro de Dona Ana, a cartomante da cidade. Ela não me pediu cartas nem linhas da mão. Apenas olhou nos meus olhos e disse, com a calma de quem lê o invisível:
— Há um tesouro no teu caminho, Omar. Mas a terra onde pisas não esquece.
Aquela frase impregnou minha mente como uma febre.
Poucos dias depois, contratei homens para conter o declínio do terreno nos fundos da casa. Enquanto escavavam perto de um puxado antigo, o solo fofo cedeu, revelando uma cratera profunda. O trabalho de contenção virou escavação. Colocaram-se estacas de madeira, mas a terra parecia engolir a luz. O buraco transformou-se num poço escuro, claustrofóbico.
Foi então que o insólito começou.
Um a um, os trabalhadores passaram mal. Queixavam-se de tonturas, dores de cabeça lancinantes e um calor sufocante que emanava daquela fenda. Faltaram ao trabalho. Chamei substitutos, mas bastava se aproximarem da borda para que uma rejeição física os fizesse recuar. Diziam que o ar ali embaixo cheirava a ferro, ferro velho e angústia.
Inconformado com o que considerei crendice popular, chamei meu primo Alex. Pragmático, Alex rindo da lenda, vestiu a coragem dos céticos:
— Não existe assombração que resista a uma pá e uma lanterna, Omar.
Ele desceu. Passou-se uma hora inteira de um silêncio sepulcral, interrompido apenas pelo som da terra sendo ferida. Quando a corda tensionou e Alex emergiu à superfície, o horror ganhou forma. Seu corpo estava coberto por uma urticária escarlate. A pele queimava, os olhos estavam inchados, vermelhos, transbordando lágrimas que ele não conseguia conter. Ele tremia como se tivesse pisado no próprio inferno gelado.
Em pavor, voltei à casa de Dona Ana. Antes mesmo que eu abrisse a boca para relatar o estado de Alex, a mulher me parou com o olhar severo:
— Eu te avisei, Omar. O tesouro tem dono.
Ela ajeitou o xaile e continuou, com a voz embargada por séculos de história:
— O que está lá embaixo está selado desde antes das revoluções da fronteira. Tempos em que terras foram roubadas na ponta da lança, gados trocados por carroças ou acordeons, e famílias inteiras foram dizimadas ou expulsas de suas querências. Mas algumas famílias possuíam escravizados de extrema fidelidade e afeto. Na hora da pilhagem e do sangue, esses homens pegaram os baús de ouro e prata dos seus patrões e os esconderam nas entranhas da terra para que os saqueadores não levassem tudo. E a lenda reza: ao morrerem, eles foram sepultados junto às caixas, amarrados com as mesmas correntes que um dia usaram. Ficaram ali, de sentinela. Guardando a riqueza do patrão para a geração que viria.
Fiquei estarrecido. O silêncio da minha consciência pesou mais que a dúvida. Não contei nada a Helena. Decidi esperar Alex se recuperar daquela bizarra "reação alérgica".
Uma semana depois, sob o sol escaldante de um janeiro impiedoso, descemos os dois para a trincheira. A terra vermelha reluzia como sangue seco. Na minha mente, a alucinação da fartura desfilava: ouro, moedas da coroa, pratas da lida campeira, diamantes... Qualquer registro histórico valioso bastaria para salvar minha família da ruína.
Cavamos desmesuradamente. Mas quanto mais a lâmina da pá penetrava a escuridão, mais o ar se tornava tóxico. Uma vertigem avassaladora nos atingiu. Nossos olhos queimavam como se pimenta tivesse sido jogada ao vento; as cabeças latejavam em frequência desumana. A terra não nos queria ali.
Para piorar, a estrutura começou a ceder. O buraco avançava perigosamente em direção às fundações da casa principal. Desesperado, chamei um engenheiro da região. O diagnóstico foi taxativo e imediato:
— Parem agora! Se derem mais uma picaretada, a casa inteira vai ruir sobre vocês.
No limite do desespero, tentei uma última cartada. Voltei à borda da cratera e, em sussurro, tentei pedir licença aos espíritos que guardavam o subsolo. Mas a resposta do invisível veio sem palavras, cravada no ar em forma de um arrepio glacial e da certeza absoluta que ressoou na minha alma:
"Este tesouro só volta para a mão dos seus verdadeiros donos."
Aquela verdade límpida e severa enfureceu meu orgulho, mas curou a minha ganância.
Subi as escadas ofegante, olhando para a janela onde Helena segurava o pequeno Miguel no colo. Corri para o galpão, peguei a pá e comecei a tapar o buraco.
Instantes depois, tomado por um impulso coletivo, cada homem que havia ajudado a cavar apareceu no pátio. Ninguém disse uma única palavra. Todos pegaram pás, baldes e enxadas e começaram a devolver a terra vermelha ao seu lugar sagrado. À medida que a cratera se fechava, um sentimento inexplicável de alívio e paz desceu sobre a trincheira. A vertigem cessou. A ardência nos olhos esvaiu-se no ar de fim de tarde.
Aquela casa pertenceu à minha avó. E talvez hoje, exatamente abaixo daquela peça dos fundos, ainda repouse um baú intocado — guardando moedas valiosas, alfaias antigas ou apenas as vestimentas e arreios da lida campeira de um tempo de dor.
O certo é que a terra cobriu a memória. E nunca mais ninguém nesta cidade teve a ousadia de voltar a cavar.
Biblioteca de Experiências & Memória: Crônica autoral integrante do acervo permanente do Conto Pra Viagem. Registrada em Cruz Alta / Porto Alegre.

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