Um Passo ao Lado

Algoritmo Reflexão Política Direita x Esquerda Porto Alegre RioGrande do Sul Brasil



Lembrei-me esses dias dos tempos de faculdade de Letras, quando conduzi uma oficina sobre textos argumentativos para os alunos da Escola Dolores Caldas. O objetivo imediato era pragmático: preparar aquela turma para o fantasma da redação dos vestibulares e concursos. Mas havia ali um desejo mais ambicioso e silencioso da minha parte. Eu queria que eles se vissem obrigados a ler. Queria que percebessem que defender uma ideia não é erguer uma barricada, mas abrir uma clareira.

Para construir um argumento razoável, era preciso primeiro escutar o tema, ler as entrelinhas e aceitar a existência do contraditório. Argumentar exigia o exercício nobre de olhar para o pensamento do outro antes de formular o seu.

Hoje, quando observo a política e a dinâmica social das nossas redes, vejo que aquela premissa ruiu. A vontade de argumentar simplesmente evaporou, substituída pela certeza incômoda de que ninguém do outro lado está disposto a ouvir.

A grande mazela dos nossos dias é a pressa imposta pelo algoritmo. O feed não tolera o silêncio do pensamento. Ele exige o reflexo imediato, o comentário de gatilho, a tréplica disparada em segundos. Só que não existe debate real sem a pausa da reflexão. Sem o tempo necessário para mastigar o que foi dito, digerir as nuances e ponderar, o que produzimos não passa de uma resposta muscular e ambivalente — fruto do impulso, nunca da convicção.

Viramos uma sociedade de palestrantes sem plateia. Ninguém mais aceita dividir o palco do pensamento. Se dois lados sobem à cena apenas para ostentar suas certezas em microfones ensurdecedores, não há diálogo; há apenas dois monólogos sobrepostos e ruidosos. Estar certo sobre absolutamente tudo tornou-se o único troféu aceitável, alimentado por essa vã ilusão de que a inteligência artificial ou os buscadores instantâneos nos deram a chave de todas as respostas e a síntese de todas as fontes.

No entanto, ter acesso rápido a um amontoado de dados nunca foi sinônimo de sabedoria. A máquina entrega a informação, mas a ponderação continua sendo um trabalho exclusivamente humano e artesanal.

Diante do ruído estéril das certezas absolutas, talvez a única saída elegante e lúcida seja dar um passo ao lado.

Dar esse passo não significa omissão, covardia ou abandono do debate. É, antes de tudo, uma recusa em entrar no jogo da reação automática. É recuperar o respiro, a leitura atenta e o direito ao benefício da dúvida. Um passo ao lado nos permite observar a cena com distanciamento, reler o contexto sem a urgência do algoritmo e lembrar daquilo que tentávamos ensinar naquelas salas de aula: a verdadeira sofisticação do pensamento não está em vencer a discussão a qualquer custo, mas na capacidade de escutar, refletir e aceitar que o conhecimento é um palco feito para ser compartilhado.

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