Do Topo do Mundo Corporativo ao Modo Ayrton Senna: A Arte de Não Perder o Voo
Existem dias em que São Paulo parece funcionar em duas rotações completamente distintas. Em uma delas, o tempo é um ativo escasso, disputado entre as vidraças da Faria Lima, os painéis do programa de aceleração do BTG SOMA Educação e o horizonte imponente visto do rooftop do Baleia. No ecossistema dos grandes negócios e do impacto social, tudo se move na velocidade da urgência.
Na outra rotação, contudo, o tempo se rende ao critério.
A caminho do retorno para Porto Alegre, o Itaim Bibi nos ofereceu uma dessas frestas de desaceleração que justificam a viagem. Sentar no Bar do Brenno para um almoço rápido — mas jamais negligenciado — foi o rito de passagem necessário antes do caos.
Mesa posta, a pausa ganhou forma, aroma e textura. O paladar foi blindado por uma combinação impecável: um queijo brie servido quente, entregando uma cremosidade densa que contrastava com a acidez doce de uvas perfeitamente flambadas, o brilho do mel e a crocância sutil de amêndoas laminadas. Naquele instante, entre o calor do queijo e o perfume das uvas, São Paulo silenciou. Não havia relógio, planilhas ou portões de embarque. Havia apenas a permanência do sabor.
A calmaria, porém, era um prelúdio. Mal sabia eu que, assim que a última amêndoa fosse saboreada, a capital paulista cobraria seu preço em adrenalina.
Sábado, início de tarde. O Jardim Europa e os arredores pareciam congelados por um nó monumental no trânsito: reflexo direto da massa que se deslocava para o show do AC/DC. O relógio, que antes ignorávamos, passou a jogar contra. A distância até o Aeroporto de Guarulhos parecia se esticar a cada minuto parado na avenida.
Foi quando entrou em cena o verdadeiro herói anônimo da odisseia: o motorista de aplicativo. Diante do mapa completamente congestionado, estabelecemos um pacto silencioso de sobrevivência logística. Conversamos sobre rotas alternativas, e ele assumiu um legítimo "modo Ayrton Senna". Entre vielas esquecidas, costuras milimétricas no tráfego e atalhos que desafiavam o GPS, cruzamos a cidade em uma corrida contra o inevitável.
Chegar a Cumbica foi apenas a primeira metade do milagre. A segunda envolveu uma corrida de quase um quilômetro pelos corredores do terminal, desviando de malas e passageiros, com o coração na boca, para alcançar a fila de embarque.
E a graça final? O destino, que às vezes tem um senso de humor poético, nos salvou não pela pontualidade, mas pelo atraso do voo decorrente do no-show de outro passageiro. O minuto extra que alguém perdeu foi o segundo exato que garantiu o meu retorno a Porto Alegre.
No fim das contas, a rotina de quem viaja a negócios é um eterno equilíbrio sobre a corda bamba. Por aqui, a gente corre freneticamente pelos saguões apenas para não perder o voo... porque, no fundo, sabemos que a leitura — e a lembrança de um brie inesquecível — já está calmamente garantida. Ufa.
Se você gosta de desacelerar a rotina através do paladar, confira também a minha experiência colecionando momentos na Leiteria 639




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