CIDADE DE LONA: O IR E VENIR DAS MEMÓRIAS INDELÉVEIS
O minuano aperta lá fora e o cinza típico de Porto Alegre começa a desenhar a moldura da janela. É nesse frio úmido, que parece calar a cidade grande, que a mente da gente teima em buscar o calor do galpão. O corpo pede o casaco, mas a alma pede o cheiro de lenha queimada e o estalar da brasa viva. Nem precisa fechar os olhos; o rastro da fumaça mansa me transporta direto para as minhas origens.
Eu nasci, praticamente, na cidade de lona do parque de exposições, durante as congelantes noites da Coxilha Nativista de Cruz Alta na mesma época de outro dos festivais como o da Califórnia da Canção Nativa.
Quem viveu aquela época sabe do que estou falando. Famílias inteiras morando por semanas em barracas de camping, desafiando o tempo, com ou sem chuva. O chão batido virava sala de estar. O teto era o tecido esticado sob as árvores. Para espantar o gélido sereno da madrugada, o remédio era certeiro: valetas cravadas na terra com toras de lenha grossa para assar o churrasco, o aconchego de um pala bem pesado e, claro, uma boa canha para ajudar a empurrar o frio para longe.
Dali de dentro, o som que vinha dos pavilhões desenhava a nossa infância. Era a efervescência da cultura essencialmente gaúcha explodindo em bailes esfumaçados, animados pelos Garotos de Ouro, pela voz estrondosa de João de Almeida Neto e tantas outras lendas que rodeavam a nossa juventude.
Foi ali, naquele ambiente rústico e sagrado, o meu primeiro baile. A primeira noitada. A lembrança nítida de voltar de madrugada, pisando de mansinho, com as botas do meu pai penduradas no ombro para não acordar ninguém e evitar o primeiro sermão por esse eterno mistério de "ir e venir".
O tempo passa, a estrada consome quilômetros, mas o testemunho permanece. Olhar para trás e ver o orgulho sob o portal do GAG Piazitos do Sul, ou a parceria das gerações mateando na cadeira de praia, de lenço atado e bota suja de poeira, me faz entender o peso dessa herança. O guri que desviava dos sermões na casa da avó jamais imaginaria que, anos mais tarde, colocaria a sua própria caneta para rodar o mundo e criar uma letra para concorrer com os mesmos "feras" que sempre admirou: Mauro Moraes, Lizandro Amaral, Quarteto Coração de Potro...
Essa música, Carreira do Jeová, uma vaneira de fundamento, nasceu de forma pura. Foi criada na casa dos pais do meu saudoso amigo Marcelinho (Marcelo Soares) — o eterno Gauchinho de Cruz Alta —, enquanto ouvíamos as histórias do velho sobre uma tal "égua veada". A música ganhou vida, o destino se encarregou de costurar os caminhos, mas o que fica de verdade são as marcas no coração. "Ficam as memórias indeléveis", como bem cantaria o Marenco.
Hoje, o guri da cidade de lona se junta à gauchada para celebrar a vida em comunidade, com o sorriso largo e a cuia na mão, consciente de que o chão onde pisamos sustenta quem realmente somos.
A chaleira aqui em Porto Alegre já está chiando e o mate tá cevado. Mas olhando para essa nossa história, confesso que bateu uma saudade legítima da poeira levantando do tablado ao som de uma gaita bem tocada.
Bah, tchê! Que saudade de um baile... Vamos?
Sobre o Autor
Éderson Otharan Soares é cronista de estrada, pesquisador cultural e o contador de histórias por trás do Conto pra Viagem.
Leia mais em https://contopraviagem.blogspot.com/2026/04/o-vento-o-violao-e-cruz-de-lorena-meus.html

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Saudade de um baile... daqueles! Amei
ResponderExcluirJá já iremos !💃🕺
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