O Vento, o Violão e a Cruz de Lorena: Meus 400 anos de Missão

O Vento, o Violão e a Cruz de Lorena: Meus 400 anos de Missão

Nascer em Cruz Alta, a "Porteira das Missões", já é um prenúncio de que a vida será feita de idas e voltas. Mas nascer em um 17 de dezembro, dividindo o calendário com o nascimento de Érico Veríssimo, é mais do que uma efeméride: é um compromisso com o tempo e com o vento.

O Acorde que Vem de Longe

A conexão com a música e com a história não nasce no palco; ela é cultivada no fogo de chão da infância. Sou filho de patrão de CTG, criado entre o rigor das tradições e o calor do pampa.

 As primeiras lições de costado: violão, flauta de pã e o calor da lareira, preparando a herança.

Foi ali, em momentos como esse da foto, com o violão no colo e o sopro da infância me acompanhando, que a "missão" começou. O legado tradicionalista é uma construção de paciência, como o erguer das pedras de São Miguel.

O Costado e a Utopia

Recentemente, ao ver o Rio Grande do Sul se debruçar sobre os 400 anos das Missões Jesuíticas, minha mente não voou apenas para as ruínas. Ela pousou no tablado de um ENART. Nada na minha trajetória de gestor cultural ou viajante se compara à vibração de estar no palco fazendo o costado no violão para minha filha Sofia declamar.

ENART: O silêncio sagrado do palco, o costado do violão e a voz da descendência mantendo viva a tradição.

Ali, naquele silêncio que antecede o verso, entendi a força das reduções. Os jesuítas sabiam que a música era a ponte entre mundos. No palco, meu violão era o suporte, a base, a "redução" onde a utopia missioneira sobrevivia em forma de poesia, do sopro da flauta de pã de ontem para a voz potente de prenda de hoje.

Entre Érico e as Pedras

Érico Veríssimo escreveu que "o tempo é um rio que corre". Para mim, ele corre sobre a terra vermelha das Missões. Celebrar 400 anos dessa história é celebrar a nossa teimosia em existir e criar arte. Seja na crônica de um blog ou no silêncio entre dois acordes, somos todos missioneiros.

A minha missão? Continuar sendo porteira, ponte e costado. Afinal, quem tem a Cruz de Lorena no horizonte e um violão no peito, nunca viaja sozinho.

O legado


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