O Centro Histórico que me Habita: Um Manifesto de Boemia, Versos e Linhas de Afeto

 

Por Éderson Otharan

​Antes de o ponteiro do blog romper marcas que me enchem de orgulho, ele precisou girar muito tempo atrás, nas calçadas de pedra da nossa capital. Muito antes de eu olhar para Porto Alegre como um mapa a ser mapeado, a cidade me fisgou pelos sentidos, pela política e pelo coração.

​Tudo começou no topo do Centro Histórico. Minha escola de vida tem nome, sobrenome e uma arquitetura monumental: a Escola Estadual Senador Ernesto Dornelles. Foi naquela icônica escadaria, sob a sombra mística e cheia de lendas do Castelinho do Alto da Bronze, que as minhas primeiras linhas foram escritas. Dali, os meus olhos de guri de ensino médio miravam o horizonte para tentar eternizar em versos uma furtiva musa chamada Ilha Bela.

​Mas o Ernesto Dornelles não me deu apenas a poesia; deu-me o palco. Foi ali, ocupando a presidência do Grêmio Estudantil, que comecei a entender os meandros da política, o peso das articulações e o jogo das influências. Entre um discurso, uma assembleia e um poema, eu descobria como mover as engrenagens de um ecossistema vivo. Mal sabia eu que aquela efervescência juvenil estava moldando o gestor, o músico e o cronista que viriam a seguir.

​Anos mais tarde, o cenário político estudantil deu lugar ao ritmo acelerado do Centro corporativo. Entre 2011 e 2017, minha rotina acontecia sob os tetos altos dos clássicos edifícios Fênix e Dabdab. Cruzar os corredores daquele gigante de concreto do Sr. Rafael Dabdab e respirar a gestão diária era o meu "lado A".

​Mas quando o relógio batia 18h, o terno da gestão pedia licença para as baquetas da bateria e para a experiência sensorial da boemia. O Centro se transformava.



​Minha rota de fuga legítima e intransferível passava por balcões que hoje deixam uma saudade bonita e apertada no peito. Caminhava até o lendário Odeon para ver as quintas-feiras ganharem o tom melancólico e urgente do tango. Entre o som clássico do bandoneón trazido pelo outro Rafael e as notas perenes do jazz que resistem até hoje, o próprio Celestino, proprietário da casa, vinha à mesa servir o clássico e inesquecível prato de rins ao alho e óleo. Aquilo era o puro suco da noite porto-alegrense.

​Essa caminhada noturna era tecida por amizades reais, daquelas que definem o sabor da cidade. Eu transitava com a cumplicidade de quem é de casa: fosse na conversa de bastidores com a família Simoneti — do querido Vilmar, irmão do proprietário do emblemático Chalé da Praça XV —, fosse no balcão da Banca Essencial do Mercado Público, trocando ideias sobre lúpulo, malte e negócios com o mestre cervejeiro Rodrigo Tomasel. Ali, o suor do dia se dissolvia em copos de alta qualidade e em prosas que não tinham hora para acabar.

Banca Essencial Centro Histórico Guia afetivo definitivo de Porto Alegre


​Por isso, quando digo que o Conto pra Viagem assume agora a missão de ser o Guia Afetivo Definitivo de Porto Alegre, não estou falando de um panfleto comercial de turismo. Estou falando de um mapa desenhado com a minha própria pele. Um roteiro feito de memórias de quem já liderou nas escadarias da escola, gerenciou nos grandes edifícios, dedilhou a noite como músico e brindou com os guardiões da nossa gastronomia.

​O Centro Histórico foi a minha primeira escola, o meu escritório e o meu confessionário boêmio. E é por ele, por essas calçadas cheias de alma, que nós vamos começar a redesenhar o nosso olhar sobre Porto Alegre.

​Pegue a sua carona. A viagem afetiva está só começando.

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