O Sol Lagarteador e os Tênis que Voam: Uma Quinta-Feira de Memória na Praça
Existem dias em que a pressa da gestão precisa dar lugar ao passo do peregrino. Dias em que a melhor decisão executiva é, simplesmente, sentar no banco de uma praça para respirar por um breve momento e sentir a alma do bairro.
Foi o que fiz nesta quinta-feira de sol aqui na Santana, em Porto Alegre. O inverno gaúcho tem dessas linhas poéticas: o frio aperta na sombra, mas o sol nos convida a "lagartear". E ali, na calmaria da Praça Major Joaquim de Queirós, enquanto absorvia o calor e o movimento sutil do bairro, o universo resolveu me pregar uma peça cronológica.
Olhei para cima e, no meio das folhas de uma árvore bela e alta, vi um par de tênis pendurado pelos cadarços.
Hoje, os mais jovens ou os teóricos urbanos chamam isso de shoefiti. Mas para mim, o impacto foi um portal direto para a minha infância em Cruz Alta. Naquela época, ver um tênis vencido pelo tempo voar em direção aos fios do poste era quase um rito de passagem. Uma espécie de lição silenciosa e brincalhona dos mais velhos aos menores, demarcando o território da nossa liberdade.
Ver aquela imagem ali, emoldurada pelo sol de Porto Alegre, me trouxe uma saudade desarmante. Saudade dos campos de futebol de várzea que sobravam nos bairros da infância. Daquele tempo em que a gente jogava todos os dias em massa, até o gastar da sola, até o sol sumir no horizonte do campo.
O tênis na árvore da Major Joaquim de Queirós não está mais no poste, mas cumpre o mesmo papel: é um monumento flutuante às nossas memórias. Uma prova de que a infância nunca nos deixa de todo; ela só fica esperando o sol certo e a praça certa para balançar na nossa frente.
Viva o sol. Vivam as praças que resistem. E vivam as memórias que nos habitam.

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