Bayonne 2011: O dia em que o idioma falhou e a alma cantou
O Caos da Chegada:
Existem manhãs que o GPS não prevê e que os dicionários não explicam. Eram 7h24 de um 4 de novembro de 2011 quando desembarquei do TGV vindo de Irun.
O frio da madrugada da Espanha ainda estava impregnado no casaco, e eu, a bordo de um "mochilão contra os tempos", trazia comigo um roteiro que já havia sido rasgado quilômetros atrás.
Eu estava em Bayonne, na porção francesa do País Basco. Naquela época, eu ainda não sabia nada sobre os bascos; a Casa Basca RS e o livro Alma Basca eram capítulos do meu futuro que eu sequer sonhava em escrever. Para mim, Bayonne era apenas uma parada estratégica com uma estação de trem antiga, canais charmosos e bandeiras coloridas balançando ao vento.
O Choque de Civilizações (ou de Gênios)
Minha odisseia começou ao atravessar a cidade para fazer o check-in em um hostel. Cheguei exausto, vindo de uma noite inteira de viagem, por volta das 9h da manhã. O recepcionista não falava inglês. Tentei um castelhano de sobrevivência para tentar adiantar minha entrada, mas a comunicação não fluiu.
Ele não gostou do meu tom, eu não gostei da sua rigidez com a rotina de hóspedes. Discutimos em uma mistura caótica de idiomas. Saí de lá bufando, com o cansaço pesando nos ombros, decidido a me perder por outros caminhos.
O Portal das Três Línguas
Caminhando sem rumo, algo me parou: as placas de trânsito. Elas anunciavam a cidade em três mundos: Galego, Francês e Euskera. Foi ali, entre uma placa e outra, que percebi que estava pisando em uma terra de resistência e identidade profunda. O desentendimento no hostel começou a fazer sentido; eu não estava apenas em outro país, estava em uma nova civilização.
O Lado Bom de se Perder
Como sempre busco o melhor caminho, mesmo quando me perco, acabei voltando para perto da estação de trem. Foi lá que encontrei o
A vista da janela dava para a praça central (exatamente a da foto que guardo até hoje), e o conforto compensou cada minuto da discussão matinal.
A noite caiu e a história se encarregou do resto. Naquela mesma praça, entrei em uma jam session que parecia ignorar qualquer barreira linguística. Cervejas de todos os continentes regavam o ambiente, mas era a música que fazia o trabalho pesado. Ali, entendi que a música é, de fato, o idioma das almas cantantes.
A lição que ficou na mochila? Às vezes, um "não" em um hostel barato é o empurrão que a vida te dá para você acabar em um hotel melhor, com uma vista privilegiada e uma trilha sonora inesquecível.
Osasuna! Cheers!
"Qual foi a última vez que um 'não' ou um erro de comunicação te levou para um lugar muito melhor?"



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