O Dia em que a Justiça subiu de Escada: Uma Lição sobre Togas e Humanidade
Nos idos de 2010, minha rotina era desbravar o Rio Grande do Sul. Como preposto da GOL, viajei de Rio Grande a Torres, conhecendo cada comarca e, para alimentar minha curiosidade pessoal, a arquitetura de quase todas as igrejas do estado. Mas foi em uma cidade do interior que vivi uma das lides mais marcantes da minha carreira.
O Cenário
O caso era delicado: uma senhora idosa havia sofrido uma queda em um desembarque remoto (aquela descida pela escada da aeronave até o pátio) e fraturado a perna. Ela buscava, com justiça, reparação por danos morais e materiais.
A audiência foi marcada em um fórum antigo, daqueles prédios históricos e imponentes, mas sem acessibilidade. A sala de audiência ficava no segundo andar. Não havia elevador.
O Embate
Ao ver aquela senhora com a perna engessada, cercada por familiares, diante de uma escadaria intransponível, o lado humano falou mais alto que o protocolo corporativo. Solicitei à juíza que a audiência fosse realizada no térreo, em respeito à condição da autora.
A resposta? Negada. A "Síndrome de Deus", que por vezes afeta quem veste a toga, ignorou o apelo da defesa, da advogada da autora e da própria família. O rito processual parecia valer mais que a dignidade humana.
A Estratégia e a Verdade
Não restou alternativa: eu e os familiares carregamos a senhora degrau por degrau até a sala. Durante a audiência, usei aquela injustiça como argumento. Indaguei à autora o que havia causado mais pesar: o infortúnio no voo, onde a companhia prestou assistência, ou o esforço hercúleo de subir aquelas escadas para ser ouvida pelo Estado?
Com a franqueza que o momento exigia, comentei que a indenização, talvez, devesse ser cobrada do Tribunal de Justiça, pela total falta de estrutura e empatia no atendimento à cidadã.
A idosa, em um momento de clareza emocionante, reconheceu: "Sofri mais para subir estas escadas hoje do que quando quebrei a perna." Fiz constar tudo em ata. Eu sabia que a sentença ali seria desfavorável, mas a verdade estava registrada para a segunda instância.
A Lição de Gestão (e de Vida)
Nessa convivência com tantas lides e pessoas diferentes, aprendi que, na maioria das vezes, as pessoas só querem ser ouvidas e consideradas. A juíza ficou com a toga; eu fiquei com a consciência limpa e uma história de humanidade. O desfecho? Fui de carona com a própria família da autora até a rodoviária. Naquele dia, não éramos partes contrárias em um processo; éramos apenas pessoas que compartilharam uma jornada.

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